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Por: Gerson Lopes de Almeida
Durante anos, a transformação digital foi associada à capacidade de uma empresa adquirir e implementar novas tecnologias. Quanto mais moderna a infraestrutura, mais sistemas disponíveis e mais ferramentas incorporadas à operação, maior parecia ser o avanço digital.
Agora essa lógica está mudando. O desafio das empresas hoje já não é necessariamente ter acesso à tecnologia. Inteligência artificial, computação em nuvem, análise de dados, automação e diferentes soluções digitais estão cada vez mais disponíveis. A questão mais importante passou a ser outra: como conectar essas tecnologias à estratégia do negócio para gerar resultados concretos?
Uma empresa pode ter dezenas de ferramentas digitais e, ainda assim, operar de maneira fragmentada. Pode investir em inteligência artificial sem redesenhar processos. Pode acumular grandes volumes de dados sem utilizá-los para tomar decisões. Pode modernizar sua infraestrutura sem garantir que ela acompanhe as necessidades do negócio. E pode investir em segurança apenas para reagir a incidentes, sem tratá-la como parte da própria estratégia de crescimento.
Muitas empresas tratam a tecnologia como custo, quando ela deveria ser na verdade uma alavanca de competitividade. Um estudo da PwC divulgado em 2026 ajuda a dimensionar esse desafio. A pesquisa aponta que apenas 9% das empresas brasileiras redesenham seus fluxos de trabalho para incorporar a inteligência artificial, contra 56% entre as organizações consideradas líderes no uso da tecnologia. Além disso, apenas 30% das empresas brasileiras afirmam investir em IA com foco em resultados futuros, ante 65% entre as líderes globais.
Ou seja, vemos aqui muitos casos em que a tecnologia está sendo colocada sobre estruturas existentes, sem que a empresa repense a maneira como o trabalho é realizado de fato.
O que não faltam são tecnologias, a transformação digital tem possibilitado a proliferação de ferramentas. Cada área adota a solução que melhor atende à sua necessidade imediata. Marketing escolhe uma plataforma, vendas utiliza outra, recursos humanos adota uma ferramenta de inteligência artificial, operações trabalha com sistemas próprios e a área de tecnologia precisa, posteriormente, encontrar maneiras de integrar tudo isso.
O problema não está necessariamente nas ferramentas. Está na ausência de uma arquitetura que determine como elas devem conversar entre si e contribuir para os objetivos da organização. A tecnologia precisa deixar de ser uma coleção de soluções e passar a funcionar como um ecossistema.
Investir em IA não significa ter uma estratégia de IA. A empresa precisa saber onde a IA pode gerar impacto, quais processos precisam ser modificados, quais dados serão utilizados, quais riscos precisam ser controlados e quais indicadores permitirão avaliar o resultado.
A próxima etapa da transformação digital não será necessariamente uma corrida para adotar mais tecnologias. Será uma corrida para organizar melhor as tecnologias que já estão disponíveis.
Outro paradoxo é o das empresas que possuem cada vez mais dados, mas ainda têm dificuldade para utilizá-los. Dados espalhados em diferentes sistemas, informações duplicadas, falta de integração e ausência de governança dificultam a transformação dessas informações em inteligência para o negócio.
O avanço da IA torna essa questão ainda mais crítica. Quanto mais as empresas utilizarem inteligência artificial para apoiar decisões, automatizar processos ou criar agentes capazes de executar tarefas, maior será a necessidade de garantir que os dados utilizados sejam confiáveis, acessíveis e adequadamente protegidos.
Não basta ter dados. É preciso saber quais dados existem, onde estão, quem pode acessá-los, como são tratados e para qual decisão eles podem contribuir.
Além disso, a infraestrutura já deixou de ser apenas uma questão de TI. O crescimento dos negócios digitais também está mudando o papel da infraestrutura. Aplicações em nuvem, inteligência artificial, automação e grandes volumes de dados demandam capacidade de processamento, armazenamento, conectividade, disponibilidade e escalabilidade.
Por isso, a infraestrutura não deveria ser planejada apenas para atender às necessidades atuais. Ela precisa acompanhar a estratégia de crescimento da empresa. O próprio Índice de Transformação Digital Brasil, divulgado em 2026 pela PwC e pela Fundação Dom Cabral, mostra avanços importantes nessa dimensão: o indicador de infraestrutura tecnológica passou de 3,6 para 4,3, impulsionado, entre outros fatores, por investimentos em segurança da informação e computação em nuvem. O próximo passo é conectar essa evolução às prioridades do negócio.
Quanto mais conectada uma empresa está, maior também é sua exposição. A segurança não pode ser pensada apenas como uma barreira contra ataques. Ela precisa fazer parte da estratégia de transformação desde o início. Isso é especialmente importante diante da expansão da IA, da nuvem e das integrações entre sistemas. Uma estratégia digital segura cria as condições para que a inovação possa avançar.
A pergunta de milhões deve ser: qual resultado estamos buscando?
Talvez esse seja o principal ponto de mudança. Durante muito tempo, o sucesso de uma iniciativa tecnológica foi associado à sua implementação. Sistema instalado, projeto concluído, ferramenta disponibilizada. Mas implementar não significa necessariamente gerar valor.
Uma empresa precisa saber se determinada tecnologia aumentou produtividade, reduziu custos, melhorou a experiência do cliente, acelerou decisões, abriu novas fontes de receita ou reduziu riscos. E essa mudança de perspectiva é fundamental para evitar investimentos desconectados.
Entre as empresas brasileiras, produtividade é justamente o principal objetivo declarado para investimentos em digitalização, citado por 91% das organizações em levantamento da Deloitte. Redução de custos aparece em 69%, crescimento de receita em 67% e melhoria da experiência do cliente em 66%.
São indicadores que mostram que a tecnologia já está sendo diretamente relacionada aos resultados do negócio. O desafio agora é garantir que essa relação seja efetivamente construída.
A transformação digital entra, portanto, em uma nova etapa. Não será necessariamente mais competitiva a empresa que possuir o maior número de ferramentas, o maior volume de dados ou o projeto de inteligência artificial mais sofisticado. A vantagem estará nas organizações capazes de conectar estratégia, tecnologia, dados, infraestrutura, segurança e pessoas em torno de objetivos claros.
A transformação digital deixou de ser uma agenda exclusivamente tecnológica para se tornar uma agenda de negócios. E, diante da velocidade com que novas tecnologias chegam ao mercado, talvez o maior risco para uma empresa não seja ficar sem tecnologia, mas em investir em tecnologia sem saber exatamente para onde quer ir.
*Gerson Lopes de Almeida é diretor de Negócios e Tecnologia da Moov4.
Executivo de tecnologia com mais de 20 anos de experiência em liderança de equipes, gestão de infraestrutura, arquitetura de soluções, projetos de transformação digital e serviços de TI. Possui sólida experiência na condução de processos de modernização tecnológica, reestruturação organizacional e integração entre áreas de tecnologia e negócios. Ao longo de sua carreira, desenvolveu forte capacidade de gestão de equipes multidisciplinares, planejamento estratégico, governança de TI e relacionamento com áreas executivas.