Pesquisa observacional liderada pela Mayo Clinic encontrou maior perda de peso em mulheres na pós-menopausa que usaram terapia hormonal junto com tirzepatida
Mulheres na pós-menopausa que usaram terapia hormonal da menopausa junto com tirzepatida (medicamento aprovado para tratamento de sobrepeso e obesidade) apresentaram maior perda de peso do que aquelas que utilizaram apenas a tirzepatida. O dado vem de um estudo observacional liderado pela Mayo Clinic, publicado na The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health, e chama atenção por tocar em uma queixa frequente nessa fase da vida: a dificuldade de emagrecer.
A relevância vai além da balança. Revisões científicas descrevem a menopausa como uma “transição cardiometabólica”, associada a mudanças no organismo que aumentam o risco de diabetes tipo 2, dislipidemia, hipertensão e doenças cardiovasculares.
Por que o peso muda após a menopausa
A menopausa é o marco do fim dos ciclos menstruais e, após 12 meses sem menstruação, considera-se que a mulher está na pós-menopausa. Esse período costuma vir acompanhado de sintomas como ondas de calor e suores noturnos, que podem afetar sono, bem-estar e qualidade de vida. Segundo os autores do estudo, esses sintomas atingem até 75% das mulheres nessa fase.
Do ponto de vista metabólico, a queda do estrogênio favorece o aumento da gordura corporal, especialmente na região abdominal, além de alterações no controle da glicose e no perfil lipídico, o que contribui para maior risco cardiovascular.
“A menopausa dificulta a perda de peso principalmente por causa das alterações hormonais, especialmente a queda do estrogênio. O estrogênio tem um papel importante na regulação do metabolismo e na forma como o corpo utiliza e armazena gordura”, explica Isabelle Rodrigues dos Santos, doutora em Ciências com ênfase em Fisiologia da Reprodução pela FMRP-USP e Diretora de Operações na Dr. Fisiologia.
Uma revisão publicada na revista Nutrients aponta que, com a redução desse hormônio, são comuns mudanças na composição corporal, com aumento da gordura abdominal, perda de massa muscular e alterações no metabolismo de gorduras, fatores que dificultam o controle do peso nessa fase.
O que é a tirzepatida
A tirzepatida é um medicamento indicado para o tratamento do sobrepeso e da obesidade que atua em hormônios ligados ao controle do apetite, da saciedade e do metabolismo. Na prática, ela ajuda a reduzir a fome, melhorar o controle do açúcar no sangue e favorecer parâmetros relacionados à saúde metabólica.
No estudo da Mayo Clinic, o medicamento é descrito como uma das opções mais eficazes disponíveis atualmente para perda de peso, embora os autores ressaltem que ainda há poucos dados sobre sua resposta específica em mulheres na pós-menopausa e sobre a possível influência da terapia hormonal nesse efeito.
Um estudo experimental publicado na revista Brain Research sugere que a tirzepatida também pode atuar em áreas do cérebro ligadas ao controle do apetite, reduzindo sinais inflamatórios e ajudando a regular mecanismos associados à fome e à saciedade. Apesar disso, esses resultados ainda vêm de modelos experimentais e não podem ser diretamente aplicados à prática clínica.
O que o estudo encontrou
A pesquisa analisou prontuários de mulheres na pós-menopausa com sobrepeso ou obesidade que usaram tirzepatida por 12 meses ou mais. As participantes foram divididas entre usuárias de terapia hormonal sistêmica e não usuárias, com pareamento estatístico para tornar os grupos comparáveis.
Ao todo, 120 mulheres foram incluídas. A perda de peso média foi maior entre aquelas que usavam terapia hormonal: –19,2% do peso corporal, contra –14,0% no grupo sem terapia hormonal, uma diferença de –5,2 pontos percentuais.
Em termos práticos, isso representa cerca de 35% a mais de perda de peso no grupo que combinou as duas abordagens.
“Essa maior perda de peso provavelmente acontece pela soma de vários efeitos: melhora do ambiente hormonal, melhor controle do apetite e do metabolismo. Além disso, mulheres com sintomas da menopausa mais controlados podem dormir melhor e ter mais disposição para manter hábitos saudáveis, o que também influencia no resultado. Como o estudo é observacional, não dá para afirmar causa e efeito, mas os dados sugerem que a combinação das duas estratégias pode atuar de forma complementar”, informa Isabelle.
Além disso, uma proporção maior de mulheres nesse grupo atingiu metas mais altas de perda de peso. Houve também melhora de parâmetros metabólicos em ambos os grupos, como glicemia e pressão arterial.
“Com base no estudo, ainda não é possível afirmar que a terapia hormonal interfira diretamente no mecanismo farmacológico da tirzepatida. O que os autores sugerem é uma possível potencialização dos efeitos clínicos, especialmente da perda de peso, possivelmente mediada por efeitos do estrogênio sobre composição corporal, sensibilidade à insulina, termogênese adaptativa e até modulação dos efeitos supressores do apetite ligados ao GLP-1”, esclarece Rafael Appel, farmacêutico e diretor científico da Dr. Fisiologia.
Quais são os pontos de atenção
O principal cuidado é entender o tipo de evidência. Por se tratar de um estudo retrospectivo, baseado em dados de prontuário, os resultados mostram uma associação, mas não permitem afirmar que a terapia hormonal seja a causa direta da maior perda de peso.
Os próprios autores destacam essa limitação e apontam que fatores como melhora do sono, do bem-estar e da qualidade de vida podem influenciar indiretamente os resultados.
“A menopausa é uma fase que envolve mudanças físicas, hormonais e também emocionais. Quando a mulher está com sintomas mal controlados, sono ruim, ansiedade ou baixa autoestima, isso impacta diretamente a motivação para manter dieta, atividade física ou mesmo usar corretamente uma medicação para perda de peso”, informa Isabelle.
Outro ponto importante é separar indicações. A terapia hormonal é considerada tratamento de primeira linha para sintomas da menopausa, mas não deve ser utilizada com objetivo de emagrecimento.
“Não é recomendada para prevenir doenças como infarto, demência ou diabetes. E não deve ser usada por mulheres que tiveram câncer de mama ou de endométrio, trombose, doença cardíaca estabelecida, doença grave no fígado ou sangramento ginecológico sem causa esclarecida, a não ser que tenha recomendação médica”, esclarece Isabelle.
O uso combinado das duas abordagens exige avaliação individualizada.
“Ao mesmo tempo, os potenciais benefícios precisam ser ponderados frente aos riscos já conhecidos da terapia hormonal, como tromboembolismo venoso, AVC e contraindicação em mulheres com câncer de mama conhecido ou histórico da doença”, indica Appel.
No estudo, não foi observada diferença relevante na ocorrência de efeitos colaterais entre os grupos. Os eventos adversos foram registrados em 32% das usuárias de terapia hormonal e em 43% das não usuárias.
“Os efeitos mais comuns foram gastrointestinais, seguidos por cefaléia, hipoglicemia, fadiga e urticária. Ou seja, com base nesses dados, a combinação não pareceu aumentar a frequência global de eventos adversos, embora o tamanho da amostra e o desenho observacional imponham cautela na interpretação”, explica Appel.
O que isso muda agora
Os resultados reforçam que o ganho de peso após a menopausa não está relacionado apenas a hábitos de vida, mas também a mudanças hormonais e metabólicas próprias dessa fase.
Ao mesmo tempo, a mensagem prática é de cautela: o estudo não indica que a terapia hormonal deve ser utilizada para emagrecimento. Os dados apontam uma possível interação que ainda precisa ser confirmada por estudos clínicos mais robustos.
“Em resumo, o estudo traz um sinal clínico relevante de que a terapia hormonal pode estar associada a maior perda de peso em mulheres na pós-menopausa tratadas com tirzepatida. Mas, neste momento, a evidência ainda deve ser interpretada como associativa, não conclusiva, até que estudos randomizados confirmem se existe de fato um efeito sinérgico entre as duas abordagens”, conclui Appel.