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Participação do ator no programa de TV reacende debate sobre diagnóstico precoce, estigmas e a importância do tratamento para uma condição que afeta milhões de brasileiros
A participação do ator Pedro Neschling em um no programa de TV reacendeu uma conversa importante, mas ainda pouco naturalizada, sobre deficiência auditiva. Ao falar abertamente sobre sua experiência com perda auditiva e o uso de aparelhos auditivos, o ator trouxe visibilidade a uma condição que afeta milhões de pessoas e que continua cercada por estigmas, desinformação e diagnósticos tardios.
Diagnosticado aos 18 anos, Pedro contou durante a entrevista que passou anos sem acompanhamento adequado após receber a orientação de que já estaria “adaptado” à condição e, portanto, não precisaria utilizar aparelho auditivo. O resultado, segundo o ator, foi um impacto silencioso e progressivo em sua rotina, comunicação e bem-estar.
O relato de Pedro se soma ao de outras personalidades que já falaram abertamente sobre desafios relacionados à audição. Nomes como Phil Collins, Eric Clapton, Sting, Chris Martin, Whoopi Goldberg, Dia Lipa, Pedro Bial, André Vasco e Rogério Fausino já compartilharam publicamente experiências com perda auditiva ou zumbido, contribuindo para ampliar a visibilidade de uma condição que ainda é cercada por estigmas.
Para especialistas, quando figuras públicas abordam o tema de forma transparente, ajudam a normalizar a busca por diagnóstico e tratamento, além de incentivar conversas importantes sobre prevenção e saúde auditiva.
“A perda auditiva é frequentemente invisível e gradual, especialmente entre adultos jovens. Muitas pessoas passam anos compensando dificuldades sem perceber o impacto cognitivo e emocional que isso gera”, explica a fonoaudióloga e audiologista Dra. Katya Freire, que acumula mais de três décadas de experiência clínica.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,5 bilhões de pessoas no mundo poderão viver com algum grau de perda auditiva até 2050. No Brasil, mais de 10 milhões de pessoas convivem com deficiência auditiva — muitas delas ainda sem diagnóstico ou tratamento.
Outro ponto destacado por Pedro durante a entrevista foi a necessidade de ampliar a compreensão sobre o que significa ter deficiência auditiva. Como ele ressaltou, existe um imaginário limitado de que uma pessoa surda é apenas aquela que não escuta absolutamente nada — quando, na prática, há diferentes graus de perda auditiva e experiências muito particulares.
“Cada pessoa terá necessidades, adaptações e formas diferentes de lidar com a deficiência. Não existe uma experiência padronizada”, reforça Gisele Munhoes dos Santos, fonoaudióloga e diretora de Marketing e Produtos Latam da WSA.
A especialista destaca que a invisibilidade da condição contribui para o preconceito.
“Por não ser algo necessariamente perceptível, muitas pessoas acabam minimizando a dificuldade do outro ou criando expectativas irreais sobre como alguém com deficiência auditiva ‘deveria parecer’ ou se comportar.”
Uma das reflexões levantadas durante o programa foi justamente a comparação com os óculos: enquanto o uso de lentes corretivas é completamente naturalizado, aparelhos auditivos ainda carregam um estigma social. Profissionais da área defendem que isso precisa mudar, especialmente porque a audição tem impacto direto em bem-estar, saúde mental e performance profissional.
“Os aparelhos auditivos trazem melhora significativa na qualidade de vida, mas também exigem adaptação. Não é apertar um botão e tudo voltar ao normal. É um processo, mas um processo que devolve autonomia e bem-estar”, afirma Gisele.
Outro avanço importante seria incorporar a audiometria aos exames periódicos de rotina, assim como acontece com exames oftalmológicos.
“Se a pessoa usa fones frequentemente, trabalha em ambientes barulhentos ou percebe dificuldade para compreender conversas, principalmente em locais com ruído, ela deveria fazer um check-up auditivo regularmente”, recomenda Dra. Katya.
Ao falar publicamente sobre o tema apenas depois dos 30 anos, quando finalmente foi avaliado de forma correta e recebeu orientação profissional especializada, Pedro também contou ter percebido o quanto sua condição surpreendia as pessoas, justamente por ser jovem, atleta e ator. Mas, ao mesmo tempo, notou o efeito positivo desse compartilhamento: para muitos, sua história trouxe alívio e identificação, mostrando que é possível viver plenamente, trabalhar, se adaptar e usar aparelho auditivo sem que isso defina quem a pessoa é.