*Por Adriano Candido, Vice-Presidente de Negócios em segmentos estratégicos na Softtek.
O cenário de cibersegurança para as instituições financeiras no Brasil atravessa uma transformação sem precedentes, deixando para trás o conceito tradicional de "proteção de perímetro" para abraçar a era da resiliência cibernética. Em 2026, atingimos um ponto de maturação onde a segurança não é mais um anexo da TI, mas o alicerce fundamental da confiança digital. Esse movimento é impulsionado pela convergência entre Open Finance, pagamentos instantâneos e o uso massivo de IA Generativa.
Não por acaso, o setor financeiro consolidou-se como o alvo principal de ataques cibernéticos, como aponta o levantamento do Gartner, que projeta que até 2026 as falhas de cibersegurança serão responsáveis por paralisar operações críticas em uma a cada três instituições financeiras globais que não adotarem modelos de resiliência.
Já no cenário brasileiro, o alerta é reforçado pela Pesquisa FEBRABAN de Tecnologia Bancária, que aponta que o orçamento de cibersegurança já representa cerca de 10% do investimento total em tecnologia dos bancos brasileiros, refletindo a urgência de proteger um ecossistema que movimenta trilhões de reais anualmente sob a nova Resolução CMN 5.274/2025.
Atualmente, os desafios de proteção tornaram-se mais sofisticados com a evolução para a Engenharia Social 2.0, que utiliza deepfakes de voz e vídeo para fraudes de identidade, com um aumento alarmante de mais de 1.200% em campanhas de phishing produzidas por IA nos últimos anos. Com o Open Finance, as APIs tornaram-se o principal vetor de ataque, exigindo que as instituições abandonem a postura reativa. A estratégia agora foca no "Monitoramento de Intencionalidade", onde a IA analisa em milissegundos se o comportamento de navegação condiz com o histórico do cliente.
Essa mudança de paradigma é sustentada por investimentos massivos. Segundo estimativas da Brasscom, o Brasil deve investir mais de R$ 104 bilhões em cibersegurança até 2028, refletindo a urgência de blindar as infraestruturas que sustentam a economia digital no país.
Além do Compliance: A tecnologia como garantia de continuidade
A Resolução 5.274 encerra a era da "interpretação flexível" ao estabelecer controles mandatórios que devem estar plenamente adequados até março de 2026. Entre as exigências mais rigorosas estão os testes de intrusão (Pentests) anuais e independentes, que forçam os bancos a adotar o modelo de Continuous Security Testing. Não basta mais ter uma política escrita, é preciso demonstrar eficácia operacional por meio de evidências rastreáveis que ficam à disposição do órgão regulador.
A adaptação passa pela implementação de autenticação adaptativa (MFA) e pela microsegmentação via software, técnica essencial para conter o "raio de explosão" de um incidente e impedir que um ataque a um canal digital atinja o núcleo de processamento de pagamentos ou o sistema de transferência de reservas.
Essa jornada de modernização exige que o CISO (Chief Information Security Officer) tenha dados precisos para reportar diretamente ao comitê executivo, elevando a segurança ao status de pilar de governança corporativa.
O Brasil já é reconhecido como um país de destaque no Índice Global de Segurança Cibernética, mas o futuro de médio prazo exigirá ainda mais hiperautomação para enfrentar o embate entre IAs defensivas e ofensivas. No fim, a conformidade com a Resolução 5.274 deixa de ser um custo operacional para se tornar uma vantagem competitiva de continuidade de negócios.
Em um mercado onde a maioria dos usuários afirma que abandonaria uma instituição após sofrer uma fraude, a cibersegurança consolidou-se como o maior ativo de reputação que uma instituição financeira pode possuir.