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Pesquisa




Pesquisa coordenada pela Unifesp identifica vestígios compatíveis com sangue no antigo DOI-Codi/SP
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Estudo combina arqueologia, física e genética forense para analisar ambientes associados a interrogatórios e tortura

A pesquisa de arqueologia forense coordenada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou resíduos compatíveis com sangue preservados em áreas do antigo DOI-Codi de São Paulo, um dos principais centros de repressão da ditadura militar brasileira. O estudo combinou investigação arqueológica, análise das transformações do edifício e diferentes técnicas das ciências forenses para examinar vestígios encontrados em espaços historicamente associados à detenção, ao interrogatório e à tortura.

A convergência entre os resultados obtidos com luminol e diferentes testes laboratoriais indicou a presença de resíduos compatíveis com material hemático em pontos específicos do edifício. Em uma das amostras, coletada em uma antiga sala de interrogatório, um teste confirmatório apresentou resultado positivo para sangue humano. As análises, entretanto, não permitem determinar quando esse material foi depositado nem associá-lo a pessoas ou acontecimentos específicos.

O trabalho também revelou, sob sucessivas camadas de tinta e reparos, um calendário gravado na parede de um banheiro por uma pessoa que esteve encarcerada no local.

Localizado na Rua Tutóia, no bairro da Vila Mariana, o complexo do DOI-Codi/SP recebeu mais de 7 mil pessoas durante seu período de funcionamento. Pelo menos 52 mortes ocorridas no local são oficialmente reconhecidas. O conjunto reunia celas, salas de interrogatório, espaços administrativos, estruturas de vigilância e ambientes utilizados para tortura.

O edifício estudado, denominado pelos Condephaat como prédio 2-a, abrigava o setor de inteligência do órgão e foi identificado por sobreviventes como um dos principais espaços de interrogatório e tortura do complexo. A ausência de plantas e de registros detalhados das reformas realizadas ao longo das décadas tornou necessária a combinação entre testemunhos, fontes documentais e análise arqueológica da própria arquitetura.

O estudo integra um projeto interinstitucional coordenado por pesquisadores(as) da Unifesp, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com participação da UFSC e da USP. Cada instituição assumiu diferentes frentes, entre elas, pesquisa documental, coleta de testemunhos, arqueologia da arquitetura, arqueologia forense e ações de arqueologia pública.

A primeira etapa do projeto, realizada em 2022, utilizou radar de penetração no solo e escaneamento tridimensional do complexo. Em agosto de 2023, foram conduzidas escavações, prospecções nas paredes e nos pisos, análises forenses e atividades abertas ao público. A frente de arqueologia forense foi coordenada por Cláudia Plens, docente da Unifesp, com participação de estudantes, arqueólogos e profissionais de outras áreas.

“Os edifícios não são apenas cenários passivos dos acontecimentos. Paredes, pisos, reformas, inscrições e resíduos também podem constituir evidências. Quando investigamos esses lugares arqueologicamente, o próprio edifício passa a ser tratado como documento”, afirma Plens.

Vestígios preservados sob pisos e paredes
Para definir os pontos de investigação, a equipe combinou documentos históricos, testemunhos e a análise das transformações sofridas pelo edifício. Foram selecionadas antigas salas de interrogatório, uma possível enfermaria, uma sala associada à prática de tortura e um banheiro.

A retirada de revestimentos mais recentes revelou, em alguns ambientes, o contrapiso de madeira utilizado durante o funcionamento do DOI-Codi/SP. Nas paredes, a abertura de pequenas áreas de prospecção permitiu identificar camadas de tinta, reboco e reparos acumulados ao longo das décadas.
A busca por possíveis resíduos biológicos reuniu fontes alternativas de luz, luminol e diferentes testes laboratoriais. Os resultados obtidos em uma antiga enfermaria e em salas de interrogatório convergiram para a identificação de resíduos hemáticos. Na sala 7, um teste confirmatório apresentou resultado positivo para sangue humano.

As análises laboratoriais, entretanto, não permitem determinar quando o material foi depositado nem associá-lo diretamente a pessoas ou acontecimentos específicos. O contexto arqueológico, porém, fornece elementos que permitem interpretar sua deposição como contemporânea ao período de funcionamento do DOI-Codi/SP. Também não foi possível recuperar perfis de DNA, provavelmente em razão da degradação das amostras, das condições ambientais e das sucessivas reformas realizadas no edifício. Os vestígios são, portanto, compatíveis com os usos historicamente documentados desses espaços, mas não constituem prova direta de atos determinados.

“Identificar vestígios compatíveis com sangue depois de tantas décadas é um resultado importante, mas é igualmente importante distinguir aquilo que cada linha de evidência permite afirmar. Os métodos forenses não permitem determinar a data exata da deposição, enquanto o contexto arqueológico permite situar os vestígios no período de funcionamento do DOI-Codi. Não é possível, contudo, associá-los a uma pessoa ou episódio específico”, explica a pesquisadora.

Um calendário como registro do encarceramento
Outro resultado da investigação surgiu em um banheiro do terceiro andar. Sob diferentes camadas de tinta e reparos, a equipe encontrou números e inscrições gravados diretamente na parede.

O conjunto foi interpretado como um calendário, com marcações correspondentes aos dias 23 a 31 de outubro e 1º a 4 de novembro. A relação entre as datas registradas e os dias da semana indicou inicialmente duas possibilidades para a produção do calendário: 1970 ou 1981. Essa ambiguidade pôde ser resolvida pelo cruzamento com o testemunho de uma ex-presa política, que declarou ter visto a inscrição quando esteve detida no local, em 1971, permitindo atribuir o calendário a 1970.

Para os(as) pesquisadores(as), a inscrição registra o esforço de uma pessoa encarcerada para preservar a percepção do tempo em condições de isolamento e violência. Parcialmente apagado pelas intervenções posteriores, o calendário constitui uma marca material da experiência do encarceramento e da tentativa de manter a percepção do tempo no interior do espaço repressivo.

No antigo DOI-Codi/SP, resíduos biológicos, sucessivas camadas de paredes e pisos, transformações arquitetônicas e inscrições preservadas constituem diferentes formas de registro material da história do edifício. Investigados em diálogo com documentos e testemunhos, esses vestígios acrescentam uma dimensão material ao conhecimento sobre a repressão política. Também podem contribuir para a investigação de outros locais associados à violência política e às violações de direitos humanos, além de apoiar políticas de memória, verdade e justiça.

Editorias: Ciência e Tecnologia  Educação  Governo  Política  Sociedade  
Tipo: Pauta  Data Publicação: 04/08/26
Fonte do release
Empresa: AIS COMUNICAÇÃO E ESTRATEGIA  
Contato: Ligia Gabrielli  
Telefone: 41-30537228-

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