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Introdução: a trajetória de um mestre modernista
Cícero dos Santos Dias (1907–2003) foi uma das figuras mais multifacetadas da arte brasileira: pintor, gravador, ilustrador, cenógrafo e professor. Nascido em Escada, Pernambuco, mudou-se ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde estudou na Escola Nacional de Belas Artes. Embora tenha abandonado os cursos, sua ligação com o modernismo foi intensa — em 1929, colaborou com a Revista de Antropofagia.
Em 1931, expôs no Salão Revolucionário da Escola Nacional de Belas Artes a polêmica pintura “Eu Vi o Mundo… Ele Começava no Recife”, de grandes dimensões e tema ousado para a época. A partir daí, sua carreira se desenvolveu entre o Brasil e Paris, onde conviveu com artistas como Matisse, Braque e Picasso.
Seu percurso artístico foi marcado por várias fases — do figurativismo modernista às experiências abstratas e serigráficas —, sempre com um forte diálogo entre suas raízes nordestinas e as vanguardas europeias.
O universo das gravuras de Cícero Dias
As gravuras de Cícero Dias (especialmente serigrafias) tornaram-se uma parte central de sua produção, especialmente a partir da década de 1960. Ele explorava cores vibrantes, formas estilizadas, figuras humanas, animais e elementos naturais, mesclando uma estética quase surreal com influências do folclore nordestino.
Outro traço marcante do artista era o caráter experimental das suas impressões: ele frequentemente realizava múltiplas tiragens de uma mesma matriz, variando as cores e criando séries únicas.
Obras e gravuras emblemáticas na Galeria Lívia Doblas
Aqui na Galeria de Arte Lívia Doblas apresentamos diversas obras de Cícero Dias que merecem destaque. Confira algumas das mais marcantes:
1) Figura Feminina
-Técnica: serigrafia.
-Medidas: 70 × 50 cm, tiragem de 123/150.
-Descrição: uma figura feminina estilizada, típica do universo imaginativo de Cícero. A combinação de cores vivas e traços delicados mostra bem seu domínio da serigrafia.
2) Flores para namorada
-Técnica: serigrafia.
-Dimensões: 110 × 75 cm, tiragem de 6/200.
-Significado: evoca poesia e delicadeza. A flor para a amada sugere intimidade e afeto, em uma composição que mistura romantismo e modernismo.
3) Sonhos
-Técnica: serigrafia.
-Medidas: 45 × 90 cm, tiragem de 183/200.
-Características: o título já sugere uma atmosfera etérea. A verticalidade da peça reforça a ideia de um mundo leve e onírico, com figuras e formas que parecem flutuar.
4) Descanso
-Técnica: serigrafia.
-Medidas: 105 × 74 cm.
-Interpretação: transmite uma sensação de calmaria, repouso – possivelmente um momento interior ou intimista, refletindo a serenidade que permeia parte da obra de Cícero.
5) Esperando na Janela
-Listada no site da galeria como uma peça de destaque.
-Sua composição sugere expectativa, contemplação ou ausência. Uma janela pode se tornar metáfora de separação ou de sonho.
6) Mulheres no Barco
-Técnica: presente no portfólio da galeria.
-Tema: embarcações, figuras femininas, movimento e talvez uma viagem simbólica ou real.
7) Noiva
-Também listada na galeria.A representação de uma noiva pode evocar ritual, transição de fase, pureza ou expectativa.
8) Figuras
-Técnica: serigrafia, tiragem de 61/200.
-A obra reúne várias figuras estilizadas, em um arranjo quase cênico, com traços modernistas e uso ousado de cor.
Outras obras históricas de destaque
Além das gravuras presentes na Galeria Lívia Doblas, há algumas obras históricas que marcam a trajetória de Cícero Dias:
“Eu Vi o Mundo… Ele Começava no Recife”
- Painel polêmico de grandes dimensões, apresentado no Salão Revolucionário da ENBA em 1931.
- A obra mistura cenas do cotidiano recifense com toques eróticos, simbolizando uma visão pessoal e íntima da cidade natal.
“Cabaré”
- Aquarela sobre papel, recentemente exibida pela primeira vez no Brasil.
- Representa a veia mais boêmia e noturna do artista, talvez inspirada por sua vivência em Paris.
“Casa Grande do Engenho Noruega”
- Obra que ilustrou edições do livro Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre.
- Fortemente conectada à cultura nordestina, aos engenhos e à herança colonial brasileira, mostrando a capacidade de Cícero Dias de dialogar com temas sociais.
Estilo, influências e legado
*Estilo híbrido
Cícero Dias transitou por muitos estilos: começou com o modernismo figurativo, passou pelo surrealismo e, mais tarde, se aproximou de uma abstração lírica. Suas gravuras, em especial, são um ponto alto nessa jornada, reunindo experimentação técnica e poética.
*Influências
Sua infância em Pernambuco (com paisagens de engenho, coqueirais e o mar) inspira muitas de suas composições. Em Paris, recebeu forte influência dos grandes nomes das vanguardas europeias, como Matisse, Braque e Picasso.
*Inovação técnica
Ao explorar a serigrafia, Cícero se permitiu brincar com cores, variações de tiragem e efeitos visuais. Ele construiu matrizes que rendiam versões distintas, muitas vezes mais ousadas a cada nova impressão.
*Legado cultural
Sua obra é celebrada por colecionadores, galerias e instituições culturais. Em 2025, por exemplo, uma exposição reunindo 42 trabalhos do artista no Farol Santander em São Paulo destacou peças de várias fases, ressaltando sua relevância para a arte brasileira.
Considerações finais
Cícero Dias é um artista complexo e profundamente brasileiro — sua arte traduz tanto sua origem nordestina quanto sua imersão nas vanguardas internacionais. Por meio de suas gravuras serigráficas, ele criou mundos poéticos, repletos de figuras estilizadas, cor, sonho e memória. Obras como “Figura Feminina”, “Sonhos”, “Descanso” e “Flores para Namorada” são apenas algumas das que ilustram a sua maestria técnica e sensibilidade estética.
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